Sustentabilidade: Um Caminho Sem Volta

“Os recursos naturais da terra incluídos o ar, a água, a terra, a flora, fauna e especialmente amostras representativas dos ecossistemas naturais devem ser preservados em benefício das gerações presentes e futuras, mediante uma cuidadosa planificação ou ordenamento.”

Esse é um dos 26 princípios que constam na Declaração da Primeira Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972. A Eco72 foi um dos pontos de partida para que o termo desenvolvimento sustentável começasse a ser debatido como necessidade. O encontro trouxe várias metas de política ambiental que deveriam ser inseridas como pauta de governo pelos países-membros. Desde então outros encontros aconteceram, o mais recente deles em agosto de 2015, na sede da ONU, em Nova York, onde foram definidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Está ficando cada vez mais claro que precisamos nos adaptar ao que foi gerado em anos de dormência ecológica e é urgente.

E por que lutar contra o plástico descartável?

O plástico utilizado nos copos, canudos, bandejas e pratos descartáveis é produzido a partir de um composto denominado poliestireno, um polímero derivado do petróleo, o qual se destaca pela sua flexibilidade. O uso desse material ganhou popularidade não só por oferecer um produto prático, mas principalmente por ser muito mais barato de produzir que utensílios de outros materiais. Apesar de parecer inofensivo, alguns estudos começaram a apontar diferente.

Os copos plásticos, por exemplo, apresentam em sua composição constituintes químicos da classe dos bisfenóis, como o bisfenol A (BPA). Tais compostos são conhecidos como disruptores endócrinos. Isso significa que eles são capazes de alterar processos de regulação hormonal, afetando o equilíbrio do sistema endócrino. O contato do bisfenol com o nosso organismo pode provocar infertilidade, alterações no sistema imunológico, puberdade precoce, além do risco de desenvolvimento de câncer.

E mais, tomar cafézinho no copo plástico pode significar problema em dobro. Um estudo realizado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) mostrou que uma substância chamada estireno é liberada do copo quando em contato com líquidos quentes, e que essa quantidade aumenta conforme o tempo de contato. O estireno também é um composto considerado cancerígeno se em altas concentrações.

Oceano de plástico

O número de animais marinhos encontrados com plástico no estômago cresce a cada dia. No Brasil hoje, não temos um sistema de reciclagem eficiente que dê conta dos 720 milhões de copos plásticos consumidos por dia, de acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos (ABRELPE). Outros dados do Ipea apontam que 30% a 40% do lixo gerado por dia no Brasil, poderia ser reciclado, mas somente 17% acaba indo de fato para as cooperativas. O plástico e os detritos descartados de maneira incorreta podem acabar no oceano e futuramente nas malhas de lixo.

Isso acontece porque em determinados pontos, as correntes marinhas formam uma espécie de “giro”, acumulando resíduos. Diferente do que a maioria pode pensar, essas malhas não são necessariamente montanhas de lixo à deriva, mas sim pequenos resíduos misturados na própria corrente, como o microplástico. Estudos recentes temem que esse material pode absorver substâncias tóxicas, como metais pesados e pesticidas, dos oceanos, prejudicando desde pequenos animais que ingerem esses detritos, até nós seres humanos, já que essas substâncias são cumulativas conforme a cadeia alimentar. Isso significa que o peixe que você come é contaminado? Provavelmente sim. São 5 malhas de lixo espalhadas pelo globo, duas no Oceano Pacífico, duas no Oceano Atlântico e uma no Oceano Índico; A expectativa é que 2050 o peso de plástico nos mares seja maior que o de peixes.

Não devemos voltar atrás

Felizmente esse conhecimento serviu para que algumas medidas fossem tomadas, como o plano da União Europeia de banir os canudos plásticos entre 2019 e 2020. Ou ainda para que gigantes de redes fast food, como McDonald’s e Starbucks aderissem aos copos de papel. Pouco a pouco a mudança está acontecendo, inclusive aqui no Brasil. Em abril de 2018 demos um passo significativo, apesar de não termos notado grandes mudanças ainda.

Trata-se do Projeto de Lei do Senado nº 92, de 2018, que prevê a retirada gradual do plástico descartável em utensílios para a alimentação.

A lei passa a valer dois anos após sua publicação e de forma gradual materiais biodegradáveis deverão ser adicionados na composição de pratos, copos, canudos, talheres e bandejas; 50% após dois anos da implementação da lei, 60% após quatro anos, 80% após seis e 100% depois de oito anos. Temos 10 anos de caminhada, mas já começamos a sentir os impactos. Algumas cidades estão proibindo o uso de canudo plástico, como o Rio de Janeiro, que foi a primeira capital a aderir à causa, já Fernando de Noronha baniu o uso e venda de descartáveis em toda a ilha, outros lugares como São Paulo e Florianópolis também já estão estudando alternativas.

Com essas mudanças sendo implementadas vamos nos permitir ter um pouco de esperança, mas sem esquecer do nosso papel enquanto indivíduos. Abolir o plástico descartável nos sistemas público e privado é um processo que pode levar décadas. Não se trata apenas de dizer o que se deve e o que não se deve fazer e esperar que as pessoas o façam, mas de conscientizar sobre os impactos gerados por conta das decisões que tomamos no passado e, infelizmente, tomamos até hoje. Se quisermos prosperar, essa é a hora de colocar a mão na consciência e cobrar das pessoas e empresas ao nosso redor o mesmo.

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